O antropólogo David Graeber criou o termo “trabalhos de merda” ou “bulshit jobs” para conceituar o fenômeno dos trabalhos inúteis: aqueles empregos que não servem para nada, não geram nada que preste e nem contribuem para o bem comum nem para o mundo, como por exemplo departamentos de suporte técnico, que corrigem falhas de softwares que não deveriam existir ou são vendidos para pessoas que não deveriam usá-los ou os gerentes cujo trabalho é supervisionar pessoas que não precisam de supervisão e geram relatórios inúteis para acompanhar métricas de desempenho que não melhoram a vida de ninguém.
Se estes trabalhos não existissem, ninguém sentiria falta ou talvez o mundo até melhorasse. E, nesta mesma lógica, quanto mais inútil o trabalho, mais bem pago é o profissional. Pensemos na diferença de salário entre o gerente de RH e o coletor de lixo.
O fenômeno é este tabu criado ao redor deste assunto muito subjetivo, visto que, se você perguntar a um profissional, muito dificilmente ele concordará que seu trabalho é inútil.
Em posições corporativas, é como se, quanto mais sênior e administrativo for seu trabalho, mais chances de que você possa completar suas obrigações em uma ou duas horas, e o resto do expediente você precisará fingir que está trabalhando para justificar sua permanência no emprego.
O contrário também é válido quando muitas tarefas extremamente burocráticas e inúteis se empilham nas costas de um funcionário precarizado, que termina o dia com extras para depois do horário e para o dia seguinte, em um loop infinito de sobrecarga que, de fato, não resulta em nada que se aproveite.
As tecnologias, as IAs e os bilionários não estão contratando ninguém para melhorar nada, muito pelo contrário. Se o trabalho fosse necessariamente algo que contribuísse para a melhoria da vida e para a conservação da natureza, haveria trabalho útil para todo mundo e muito menos gente sentindo que a vida está passando sem nenhum sentido. Mas o que podemos fazer? Continuar tentando remendar o atual sistema capitalista (sem condições) ou repensar novas formas de vida?

Sobre o fenômeno dos trabalhos de merda – David Graeber – NigraKoroDistro | Livraria Independente